8 de janeiro de 2007

"Serra de Arga - as origens dos nomes", por Batalha Gouveia

No seu interessante ensaio de características esotéricas intitulado OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE, o seu autor, Vítor Mendanha, atribui ao orónimo Arga o sentido de "sol". Trata-se de uma inexactidão etimológica, uma vez que o nome Arga diz respeito à lua e não ao sol, como as linhas a seguir irão demonstrar.

Começo por dizer que a toponímia da região que rodeia a serra de Arga evidencia a existência de um antigo culto à lua, como é disso exemplo o nome da graciosa vila de Caminha cuja etimologia já foi objecto de uma acesa polémica travada entre o Dr. Luís Figueiredo da Guerra e o Prof. José Leite de Vasconcelos.

Para o primeiro, o topónimo Caminha teve origem na expressão genitiva latina Caput Minii significativa de "Cabeça do Minho". Para o segundo, esta hipotética origem não encontra justificação sob o ponto de vista filológico. Interessado por estes temas, releve-se-me a imodéstia de apontar para o étimo de Caminha uma outra origem. O litoral ocidental do burgo caminhense descreve uma pronunciada curva que está na origem do nome Camminnia que os celtiberos ali estabelecidos lhe deram. No nome Camminnia estão aglutinados os itens vocabulares celtas cam e minn aditados do sufixo ibero-grego ia, os quais passo a examinar per si.

Para designar a curva o dialecto celta falado pelos irlandeses e escoceses chamado gaélico, empregava a palavra cam(1). Uma povoação fundada numa das muitas curvas do rio Cam está na origem do topónimo celta Camboritum (actual Cambridge) significativo de "ponte sobre o Cam". Com o gaélico cam formaram-se também os topónimos Camborne e Camburne, ambos significativos de "Curva da Colina".

O gaélico minn era um dos nomes da cabra, como se reconhece na frase gaélica "dá dheag minn", à letra, "duas boas cabras". Quanto a ia, trata-se do sufixo ibero-grego que se traduz por "terra", "sítio", "lugar" ou "local", como estes nomes geográficos confirmam: Lusitânia, Mauritânia, Spania (Espanha), etc..

No tempo em que certos animais foram elevados à dignidade de sósias dos astros, a cabra foi escolhida para representar a lua. Segundo o mito do nascimento de Zeus numa gruta da ilha de Creta, foi com leite da cabra Amalteia que o supremo deus do panteão grego se alimentou. Quando Almateia morreu, Zeus fez da sua pele uma capa que tinha a singular particularidade de o tornar invisível. Daí o título de Zeus da Égide (pele de cabra) pelo qual passou a ser apelidado.

De harmonia com o ora exposto, o topónimo celtibérico Camminnia, donde o actual Caminha, envolvia ao tempo da sua génese vocabular o sentido de "Lugar da Curva da Cabra", cabra esta aqui entendida como sendo a lua. Com o advento do Cristianismo, a idolátrica cabrinha lunar "assumiu" a natureza humana, daí advindo a escolha do hierónimo Nossa Senhora da Assunção para padroeira de Caminha.

Passo agora a debruçar-me sobre sobre o orónimo Arga. É historicamente conhecida a presença de colonos gregos na área minhota, ali apelidados de Grávios por serem originários da cidade grega de Graviá, na ilha de Eubeia. Os dórios, uma tribo grega, davam o nome de argas (em ático e jónico argos e arges) a tudo quanto representasse aspecto branco ou claro. Ora como a luz reflectida pela lua é cromaticamente clara ou branca, o argas dórico passou a soar "arga" entre nós, e a revestir o sentido de lua. Logo, o orónimo Serra de Arga pode traduzir-se por Serra da Lua ou, em termos mitológicos, Serra da Cabra.

(1) Dwelly, Gaellic-English Dictionary

Nota: o presente artigo foi publicado no jornal "A Aurora do Lima", em 19/02/1999, p.2. A fotografia, "Luar de S. João d'Arga", de António Viana da Cunha, foi acrescentada posteriormente ao artigo pelo nosso blogue.

1 comentário:

Ahraht disse...

Muita força para este blogue. Adorei este post que é formidável e espero que tenha continuação