14 de janeiro de 2018

S. João d'Arga - 28 de Agosto (por Ruben A.)


Ruben A. no seu livro Páginas (V) remete-nos para o ambiente da festa de S. João d'Arga, quase no final da década de 60.
A descrição é pormenorizada, cheia de humor, num ritmo acelerado (como quem sobe a montanha, com pressa de lá chegar) e carregada de um sentimento que transpira a Minho.
Quem já percorreu as encostas reconhece de olhos fechados, cada metro do percurso e do ambiente descritos. Quem ainda não efetuou esta peregrinação a "Meca dos romeiros minhotos"... que se inspire na narrativa de A. Leitão, para se alimentar de uma das noites melhor passadas em branco de toda a nossa vida: "Pedra acarinhando pedra.Puxa mais para cima! Já levamos duas horas bem andadas de subida íngreme. Dá-me a impressão de que tenho o sangue todo nos pés. - À volta de nós a serra de rochas, pedras, pedras a dormitar, não chegam a sentir a comichão que lhe fazem estas formigas escarafunchosas. Passam mais ranchos - estes minhotos são como gatos de sete foles. Trabalham sempre, quase não dormem no Verão e borgueiam quando os santos fazem anos. Vão a dançar e a cantar como quem chupa caramelo. Eu, de língua de fora, pareço um perdigueiro depois de ter deixado as perdizes voar para outra fraga, lá nos fundos. Ainda se sobe mais, este caminho não é para funcionários públicos nem para comerciantes estabelecidos em casas de bancos ou de latoaria, menos para ministros - é um caminho de poetas, caminhos de pedras. Como esta gente é poeta! - Há uma alegria própria no cantar, aberta, convidativa ao amor, granito polido pelos versos." (...) "Chegámos ao alto, alto que fica encostado ao céu - céu e as narinas abriram-se entusiasmadas pelo bufar. Tudo virgem. Agora, daqui ao S. João, é uma boa meia hora a descer e lá daquele fundo já se vê a capela. Assim foi, passados cinco ou dez minutos, pela garganta do desfiladeiro, à direita, a meia altura, João de Arga estava em festa. As primeiras árvores da montanha -- oliveiras, carvalhos de uns quinhentos anos e uma grande muralha que faz pensar que a capela deve estar entremuros." (...) "O panorama tem majestade. O povo ali não se abana de artimanhas, é um sim de fé e de borga.Em S. João d'Arga não existem casas - há a capela, e à volta o quartel, nome pelo qual se chama a uma barraca onde dorme a malta bem empilhada. Mas ninguém dorme - não se pode dormir, a noite e as fogueiras altas de cada ninho de pedras raro possibilitam sono - dançam os ranchos, bebem como sequiosos do Nordeste brasileiro, tudo bebe mais vinho e tudo come pela noite fora. Ninguém para - vejo um embalar puro, sagrado, da gente que espera a primeira missa às cinco da manhã. Depois da comunhão tudo parte à debandada - formam-se novamente os ranchos e ao nascer do sol o formigueiro movimenta-se de partida. Dá-se lugar a outros que vêm passar o dia 29 junto ao santo. Não durmo, olho para aquele mundo como quem mira uma reserva humana em papel selado. É tosco, primitivo, frascário, mas é puro, é português."

A., Ruben "Páginas (V)", Assírio e Alvim, Lisboa, 2000, pp 87-96.

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