4 de novembro de 2013

Povo que lavas no rio


Reúne-se neste livro diversos apontamentos da autoria de Pedro Homem de Mello, sobre o quotidiano do povo que abnegadamente desejou existir para além do anonimato, moldado pelas suas crenças, tradições e medos.

Curiosas são as páginas em que Pedro Homem de Mello (d)escreve vivências da Serra de Arga: "Vozes de Arga" e "S. João d'Arga". Entre a tragédia e a folia, entre o religioso e a malícia jocosa, Homem de Mello, revela-nos argumentos que fazem da "montanha santa", um território onde nos podemos deixar transcender, enleados no mistério do contraste da paisagem ou do oculto que povoa cada uma das pequenas aldeias de Arga: "Quando a noite desce, negra e pesada, sobre a serra de Arga, é que a alma do seu povo sobe".

17 de setembro de 2007

Cancioneiro da Serra d'Arga, por Artur R. Coutinho (4ª edição, 2007)



Esta é a 4ª edição do livro, editado pela primeira vez em 1981, da autoria de Artur Rodrigues Coutinho.

Este novo exemplar, fac-smilado da 3ª edição, visa contribuir para o apoio das obras sociais da Paróquia de N.ª S.ª de Fátima (Viana do Castelo), nomeadamente a edificação da nova igreja e centro social.

Sem dúvida, mais do que excelentes e valorosos motivos para adquirir este livro, que se encontra à venda no cartório desta paróquia vianense ou em qualquer livraria regional. O preço é de €10. Para mais informações contactar o telefone 258 823029.

Eis algumas quadras soltas da obra, completo repositório da etnografia da Serra d'Arga:

A água daquela serra
Por copos de vidro desce;
Nem a água mata a sede
Nem o meu amor me esquece.

Abaixo da Serra d'Arga
Onde fica minha aldeia,
Na linda terra de Dem
Onde o meu amor passeia.

Abaixa-te Alto do Tapado,
Que eu quero ver Castanheira,
Quero ver o meu amor
Lá nos campos da Lapeira.


COUTINHO, Artur "Cancioneiro da Serra d'Arga", Viana do Castelo, 2007, 253pp.

30 de abril de 2007

"A Lenda de S. João", por Artur R. Coutinho



Diziam que S. João era um local de passagem para Santiago de Compostela e, ao mesmo tempo, ponto de paragem e descanso de todos os outros que por lá passavam, como por exemplo carreteiros.

Verificava-se, então, que, quando os carreteiros passavam em frente à porta lateral da Capela (lado direito), os animais estacavam e não passavam dali para a frente. Então, por ordem de Frei Bartolomeu dos Mártires, mandaram fechar a pedra a referida porta, para aquilo que não se verificasse mais, assim como o desvio do caminho que estava junto a esta.

A partir daí, a porta só foi aberta novamente há cerca de 20 anos.


COUTINHO, Artur Rodrigues, "Mosaicos da Serra D'Arga", Viana do Castelo, 1997. p. 139.

13 de fevereiro de 2007

"A Lenda da Serra de Arga", por António Manuel Couto Viana


Era uma vez um rei chamado Evígio, forte e severo, que ocupava o trono visigótico da Península Ibérica, parte do qual se estendia pelas terras férteis que, séculos mais tarde, iriam constituir Portugal.

Evígio tinha uma filha única, de nome Eulália, muito bela, luz dos seus olhos, prometida por ele em, casamento ao valente guerreiro Remismundo, que desejava como seu sucessor. Mas Eulália amava outro.

Amava o jovem Egica, de nobre sangue real, também ele valoroso, é certo, mas cujos amores com Eulália o rei Evígio contrariava, preso ao compromisso tomado com Remismundo. Porque o coração se lhe negasse a aceitar a decisão paterna, Eulália resolveu fugir com Egica para longe do seu reino, onde encontrassem, juntos, a felicidade desejada.

E, numa certa noite escura, ambos, escapando à vigilância de servos e soldados, cavalgaram livres, para outros lugares mais amáveis.

Ao saber da fuga dos jovens namorados, logo o rei enviou um poderoso exército em sua perseguição. Conscientes dos perigos que corriam, Eulália e Egica procuraram ocultar-se o melhor e o mais breve possível da ira de Evígio.

E, debaixo de uma violenta tempestade, chegaram à vista de uma alta serra, chamada Medúlio, próximo da Galiza, onde fora construído o Mosteiro Máximo, conhecido de Egica, pois ali residia um velho amigo seu, Frei Gondemaro, decerto pronto a acolher, com satisfação e carinho, o par de fugitivos.

Vencendo as fúrias do vento rude e da chuva insistente, não tardaram a bater às portas do Mosteiro e a cingir os braços generosos do monge, que prontamente lhes ofereceu uma mesa abundante e o repouso dos leitos.

A manhã seguinte, trazendo consigo um Sol radioso, desvendou, aos olhos da princesa e do cavaleiro, panorama deslumbrante de campos semeados, densos e verdes arvoredos, águas rumorejantes de riachos, rebanhos brancos de ovelhas, o mugido melancólico dos bois, um pulsar de vida selvagem entre as brenhas, uma festa de pássaros nos ares.

E Eulália, encantada com o que via, exclamou:
- Porquê, chamar Medúlio ao esplendor e prosperidade desta serra, e não Agro como merece?

Respondeu-lhe o irmão Gondemaro:
- Razão tendes. Pois toda esta riqueza se deve ao trabalho agrícola, de Sol a Sol, dos nossos bons monges que a cultivam sem fadiga e com muito amor.

Rogou-lhe, então, o par de enamorado que, nesse dia magnífico, Gondemaro o casasse, antes que os homens de Evígio o descobrissem e levassem prisioneiro.

Fez-lhe o frade a vontade, no segredo do altar florido, ante a benção da cruz sagrada. Depois, Eulália e Egica partiram para novo reino, ainda mais distante do poder do rei ofendido.

Mas Eulália, ainda junto do seu amado, sofria de saudade do pai e da sua pátria, e levava os dias em lágrimas.

Até que chegou, por fim, ao castelo onde o casal morava, o velho monge do Mosteiro Máximo. Vinha exausto da viagem penosa, tão demorada e tão cheia de perigos.

Mas trazia boas notícias!

O rei Evígio, também saudoso da filha querida, estava pronto a perdoar a desobediência e a fuga, se Eulália lhe desse um neto varão, para o perdão do rei e o regresso feliz dos exilados.
Porém, antes de alcançarem o palácio de Evígio, perante a estima e o respeito de todos, quiseram voltar àquela altiva serra, onde haviam casado, chamada, agora, Serra de Arga, pois o povo, na sua ignorância, havia deturpado para Arga a palavra Agro, raiz da palavra Agricultura, com que Eulália justamente apelidara.

E assim a Serra ficou chamada até aos nossos dias, com a beleza da sua paisagem doce e agreste, cada vez mais fecunda e arroteada, com o bulício da sua fauna e pujança da sua flora, recebendo os louvores entusiásticos de quem lhe sobe aos altos e lhe desce aos vales, na devoção das romarias, escutando o balir manso dos rebanhos, o reboar dos sinos, o estrondo dos foguetes na lisura dos céus.

VIANA, António Manuel Couto "Lendas do Vale do Lima", (2002) Edição Valima - Associação de Municípios do Vale do Lima, Ponte de Lima. pp.82.
Ilustração - António Vaz Pereira

8 de janeiro de 2007

"Serra de Arga - as origens dos nomes", por Batalha Gouveia

No seu interessante ensaio de características esotéricas intitulado OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE, o seu autor, Vítor Mendanha, atribui ao orónimo Arga o sentido de "sol". Trata-se de uma inexactidão etimológica, uma vez que o nome Arga diz respeito à lua e não ao sol, como as linhas a seguir irão demonstrar.

Começo por dizer que a toponímia da região que rodeia a serra de Arga evidencia a existência de um antigo culto à lua, como é disso exemplo o nome da graciosa vila de Caminha cuja etimologia já foi objecto de uma acesa polémica travada entre o Dr. Luís Figueiredo da Guerra e o Prof. José Leite de Vasconcelos.

Para o primeiro, o topónimo Caminha teve origem na expressão genitiva latina Caput Minii significativa de "Cabeça do Minho". Para o segundo, esta hipotética origem não encontra justificação sob o ponto de vista filológico. Interessado por estes temas, releve-se-me a imodéstia de apontar para o étimo de Caminha uma outra origem. O litoral ocidental do burgo caminhense descreve uma pronunciada curva que está na origem do nome Camminnia que os celtiberos ali estabelecidos lhe deram. No nome Camminnia estão aglutinados os itens vocabulares celtas cam e minn aditados do sufixo ibero-grego ia, os quais passo a examinar per si.

Para designar a curva o dialecto celta falado pelos irlandeses e escoceses chamado gaélico, empregava a palavra cam(1). Uma povoação fundada numa das muitas curvas do rio Cam está na origem do topónimo celta Camboritum (actual Cambridge) significativo de "ponte sobre o Cam". Com o gaélico cam formaram-se também os topónimos Camborne e Camburne, ambos significativos de "Curva da Colina".

O gaélico minn era um dos nomes da cabra, como se reconhece na frase gaélica "dá dheag minn", à letra, "duas boas cabras". Quanto a ia, trata-se do sufixo ibero-grego que se traduz por "terra", "sítio", "lugar" ou "local", como estes nomes geográficos confirmam: Lusitânia, Mauritânia, Spania (Espanha), etc..

No tempo em que certos animais foram elevados à dignidade de sósias dos astros, a cabra foi escolhida para representar a lua. Segundo o mito do nascimento de Zeus numa gruta da ilha de Creta, foi com leite da cabra Amalteia que o supremo deus do panteão grego se alimentou. Quando Almateia morreu, Zeus fez da sua pele uma capa que tinha a singular particularidade de o tornar invisível. Daí o título de Zeus da Égide (pele de cabra) pelo qual passou a ser apelidado.

De harmonia com o ora exposto, o topónimo celtibérico Camminnia, donde o actual Caminha, envolvia ao tempo da sua génese vocabular o sentido de "Lugar da Curva da Cabra", cabra esta aqui entendida como sendo a lua. Com o advento do Cristianismo, a idolátrica cabrinha lunar "assumiu" a natureza humana, daí advindo a escolha do hierónimo Nossa Senhora da Assunção para padroeira de Caminha.

Passo agora a debruçar-me sobre sobre o orónimo Arga. É historicamente conhecida a presença de colonos gregos na área minhota, ali apelidados de Grávios por serem originários da cidade grega de Graviá, na ilha de Eubeia. Os dórios, uma tribo grega, davam o nome de argas (em ático e jónico argos e arges) a tudo quanto representasse aspecto branco ou claro. Ora como a luz reflectida pela lua é cromaticamente clara ou branca, o argas dórico passou a soar "arga" entre nós, e a revestir o sentido de lua. Logo, o orónimo Serra de Arga pode traduzir-se por Serra da Lua ou, em termos mitológicos, Serra da Cabra.

(1) Dwelly, Gaellic-English Dictionary

Nota: o presente artigo foi publicado no jornal "A Aurora do Lima", em 19/02/1999, p.2. A fotografia, "Luar de S. João d'Arga", de António Viana da Cunha, foi acrescentada posteriormente ao artigo pelo nosso blogue.